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2 de agosto de 2018

Filme ‘O Nome da Morte’ conta história de brasileiro que matou 492 pessoas

Foto: Reprodução

O filme “O Nome da Morte” leva Hannah Arendt para as franjas do Araguaia. É ali, entre casebres de tijolo aparente e botecos fincados em ruas barrentas, que o diretor Henrique Goldman e o roteirista George Moura querem tratar da banalidade do mal, isto é, do conceito da teórica alemã sobre atrocidades cometidas por homens comuns.

O homem comum, no caso, é interpretado pelo ex-global Marco Pigossi, que vive Júlio Santana, um jovem interiorano transformado em pistoleiro. O thriller, que chega agora aos cinemas, é inspirado no livro-reportagem homônimo de Klester Cavalcanti.

“Me intriga como um cidadão comum pode se tornar uma máquina de morte. Eu fiz questão de criar um universo coerente com essa dubiedade”, afirma Moura, responsável por imaginar os conflitos íntimos de Santana e suas relações familiares.

O livro, vencedor do Jabuti em 2007, é mais voltado a relatar a trajetória do matador de aluguel. A partir dos anos 1970, o mercenário nascido no Maranhão teria executado 492 pessoas em 13 estados, entre elas militantes da guerrilha do Araguaia, durante a ditadura. Jornalista pernambucano, Cavalcanti escreve que o assassino está “aposentado” hoje.

Levar o conceito arendtiano para os rincões brasileiros não é tarefa estranha a Moura, que escreveu, entre outras, “Onde Nascem os Fortes”, série da Globo sobre violência no sertão da Paraíba que também narra barbaridades cometidas por gente comum.

O Júlio de “O Nome da Morte” não é psicopata, segundo o roteirista. “É o vizinho pacato, a banda podre de um mecanismo perverso criado pela sociedade.” Aprendiz de borracheiro, o protagonista descamba para a pistolagem por promessas de ascensão social, que vêm sob a forma das pulseiras de ouro e da caminhonete do tio, seu “preceptor do mal”, nas palavras de Moura.

É sob as asas do parente, policial corrupto vivido por André Mattos, que Júlio dá o primeiro disparo; o primeiro por lealdade, os próximos por micro-ondas, por casa na cidade e por aí vai. Sua mulher, interpretada por Fabiula Nascimento, limpa as manchas de sangue da mochila do marido e personifica o “silêncio cúmplice”. “É o reflexo da nossa sociedade brasileira”, afirma o autor do roteiro.

Entre as vítimas, que o personagem vai anotando num caderninho, há devedores, rivais políticos, sindicalistas, lideranças indígenas e agitadores de movimentos sem-terra —ecos de Chico Mendes, Dorothy Stang e outras execuções no interior do país.

O protagonista, contudo, demonstra ter uma fagulha de consciência e expia seus crimes nos bancos da igreja.

“Como ele lida com a morte e com a vida o tempo todo, é natural que busque uma figura divina para entender o que não entende”, afirma Goldman, que diz não ter tido intenção de traçar associações entre denominações religiosas e os assassinatos.

“Ele é um homem, não é um monstro. Bem, é um homem que se comporta de forma monstruosa”, diz o diretor. “Se vivemos em um mundo tão corrupto, com parte da população segregada e um consumismo absurdo, quais são as consequências que recaem sobre o cara comum?”

Goldman também descarta a possibilidade de seu filme se restringir à realidade do Brasil profundo.

“Pense em Marielle. É um caso de pistolagem urbana”, diz ele, que retorna aos cinemas nove anos após seu “Jean Charles”, drama sobre o assassinato do imigrante brasileiro pela polícia britânica.

Em “O Nome da Morte”, o diretor tem por tarefa contar o brasileiríssimo arco dramático do sujeito preso à terra que se perde em meio a ilusões de uma ascensão ancorada no consumo. Mas usa as tintas de filmes hollywoodianos de gângster —armas mirando a câmera, poças de sangue ao léu, planos-sequência.

Esse maneirismo da direção por vezes turva um roteiro escorado numa trajetória narrativa clara e beira a glamorização do macho violento.

“Meu papel é o de contar as histórias, e não o de julgar as ações”, responde o diretor. “Não estou glamorizando, estou humanizando um personagem que é paradoxal.”


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