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22 de setembro de 2018

Pastores de igrejas históricas recusam ‘voto de cajado’, mas promovem bandeiras

Foto Rede Acontece

As igrejas históricas, das quais ganham destaque os presbiterianos, batistas e luteranos, têm tradição de não associar seu nome a um candidato em especial. A prática, que protege as instituições e os fiéis de uma prática conhecida como “voto de cajado”, não impede, porém, que os pastores dessas congregações se manifestem sobre suas posições políticas fora dos templos.

A revista Veja entrevistou cinco pastores de igrejas dessas denominações sobre a importância da conscientização política sem o direcionamento do voto dos fiéis: pastor Valdinei Ferreira, 49 anos, líder da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, conhecida como Catedral Evangélica; a pastora Denise Coutinho Gomes, 32 anos, também parte da Catedral Evangélica; pastor Valdir Steuernagel, 68 anos, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil; pastor João Haroldo Bertrand, 34 anos, da Igreja Batista da Liberdade, em São Paulo; e pastor Levi Araújo, 55 anos, da Igreja Batista da Água Branca (IBAB).

Para o reverendo Valdinei Ferreira, o uso por políticos de títulos religiosos, como pastor, bispo, missionário, padre, entre outros, é inadequado: “É um erro, confunde o eleitor. Eles chamam para a atividade política uma credibilidade que é oriunda de um espaço religioso que tem outra lógica de relação”, disse.

“A posição protestante histórica não quer um Estado religioso e nem antirreligioso. Cada um deve exercer seu papel, com liberdade. Ouvi um deputado dizer que seu trabalho no Congresso é um ministério. Mas ele está ali como representante público, custeado pela população, que é formada por diversas religiões. Se ele quiser fazer ministério, então abra mão de todos os benefícios e salário que ele tem como deputado, e viva com o que ele recebe da igreja”, comentou.

Esse posicionamento de isenção, no entanto, não inviabiliza a igreja como espaço para discussão política, segundo o pastor, que no ano passado, lançou um manifesto chamado Reforma Brasil, com sete pontos, que vão desde o fim do foro privilegiado e das reeleições até uma revisão dos mecanismos de nomeação para os tribunais e dos custos da representação política. “Não indicamos ‘vote no candidato tal’. Preferimos falar sobre critérios”, acrescentou Ferreira.

Para tentar minimizar a polarização entre esquerda e direita, que tomou o país e se refletiu também entre os membros de sua igreja, Ferreira convidou todos os presidenciáveis palestrar sobre o tema reforma política, em um espaço fora do templo. Alvaro Dias (Podemos) e Marina Silva (Rede) já participaram; João Amoêdo (Novo) confirmou presença, e Jair Bolsonaro (PSL) avaliava o convite, antes de sofrer o atentado em Juiz de Fora.

Amoêdo, Dias e Marina são os candidatos que mais atraem Ferreira: “Falar em quem vou votar não ajuda o candidato. Quem vem à igreja para ouvir o pastor, quer ouvir outro registro, não da influência política”, finalizou.

A pastora Denise Coutinho Gomes tem postura parecida à do colega de ministério: “Entendo que uma pessoa que segue determinada fé deve ser pautada por isso, mas não para promover sua religião ou impor suas ideologias. Creio que uma pessoa guiada por Deus pode fazer nossa nação melhor. E a política deve sim ser parte do cotidiano da igreja, mas como reflexão e não imposição”, pontuou.

Envolvida com as ações sociais da igreja, Denise se preocupa com o trato que o próximo governo dará a essa área: “Vemos pessoas atingidas pelo desemprego, que moram em ocupações ou na rua, que não tem condições de mudar este cenário. É uma situação desumana. Eu gostaria muito de ver o próximo presidente trabalhando por isso, para tentar pelo menos amenizar essa situação que é crônica”, avaliou.

O pastor Valdir Steuernagel compartilha da mesma preocupação. Em Porto Alegre, onde atua, tem visto a importância de se ressaltar a defesa da democracia, da reforma política e de um governo voltado para a prática da justiça social: “Almejo do próximo presidente uma gestão econômica financeira que saiba cuidar dos mais frágeis e vulneráveis, que empenhe-se por diminuir o abismo entre ricos e pobres e reformule o Estado marcado por práticas que beneficiam uns poucos em detrimento da totalidade da nação”, afirmou.

Steuernagel é também vice-presidente da ONG Visão Mundial, que se dedica a ajudar crianças vulneráveis e pessoas em situação de risco. A entidade é presidida pelo pastor Ariovaldo Ramos, que mais recentemente se tornou conhecido como “pastor lulista”.

As preocupações em relação ao perfil dos políticos no Congresso Nacional e a tendência de governos que ameaçam à democracia ao redor do mundo também foram apontadas por Steuernagel: “Qualquer candidato que não afirme a democracia com absoluta firmeza e que questione, ainda que uma fagulha dela como princípio de governo, não é digno do voto”.

“Púlpito e palanque não pertencem um ao outro. Programaticamente falando, eles se excluem. Ou seja, quando eu transformo o púlpito em palanque eu me desautorizo em minha liderança pastoral”, acrescentou o pastor, que se recusa a revelar seu voto. “A polarização desconstrói, exclui, discrimina e ataca o outro. É a construção de um processo de animalização selvagem da vida, no qual o outro precisa ser eliminado. Por isso, como pastor evangélico preciso afirmar que a nossa presente polarização é a negação de uma identidade que se qualifique como sendo cristã”.

O pastor João Haroldo Bertrand comentou na entrevista que sua comunidade também está dividida em relação aos candidatos: “As conversas sobre política ficaram mais acaloradas e com muito espaço para as generalizações. Uma senhora me disse certa vez que apesar da admiração, estava decepcionada comigo porque havia descoberto que eu era ‘petista’. Depois de alguns minutos de conversa, ela percebeu que pensávamos igual em muitas coisas e que o único ano que votei no PT foi em 2002. Dependendo de alguns posicionamentos, somos logo taxados”, comentou.

Porém, o pastor Bertrand acredita ser impossível separar religião de política: “São assuntos que sempre caminharam juntos”, afirmou, que não vê problema que um candidato use princípios de fé em seu discuso, desde que respeite as garantias dos direitos de pessoas que possuam crenças diferentes.

Diferente de outros colegas de ministério, ele revelou sua intenção de voto em Marina Silva (Rede): “Vejo coerência na sua vida pública e no seu discurso, principalmente na maneira como ela se posiciona separando a Igreja do Estado”, disse, revelando, na sequência, sua rejeição a Jair Bolsonaro (PSL). “Ele tem um discurso muito distante do discurso de Jesus. Ódio e preconceito não cabem nas falas do Cristo. Sei que em tempos de incertezas e maldades, um discurso extremista parece trazer consigo uma certa segurança, mas quando olhamos para a história, percebemos que isso nunca funcionou. É uma pena ver tantos cristãos embarcando nessa”.

A postura do pastor Levi Araújo é idêntica. Cabo eleitoral ativo nas redes sociais, ele também exaltou o posicionamento de Marina: “Nós precisamos de uma pausa para poder respirar diante dessa divisão, que tem sido alimentada de uma maneira terrível pelos dois lados. Precisamos de sanidade. De quatro anos para que os partidos façam uma autocrítica, coloquem os pés no chão”, comentou.

Segundo a Veja, Araújo foi uma das pessoas que Marina procurou para se aconselhar quando decidia se sairia ou não como candidata este ano. Araújo contou que a encorajou: “É uma mulher com uma história linda de superação. É forte, firme, ética e pacífica. Que pensa na sustentabilidade, nas gerações futuras. Voto na Marina pensando nos meus netos”. Assim como Araújo, o pastor titular da IBAB, Ed René Kivitz, declarou seu voto em Marina Silva este ano.

“No Brasil é muita gente com pouco e pouca gente com muito. E o pouco que conquistamos no passado está sendo tirado. Então o retrocesso que chega à nossa sociedade agora não é só moral, é um movimento que traz um sucatear de toda a proposta do cuidado social. A democracia não pode ser colocada em risco em nome da economia. Parece que se a economia vai bem a democracia não interessa, os direitos humanos não interessam. Tá bem para quem, cara pálida?”, acrescentou, demonstrando despreocupação com um eventual colapso econômico do país, similar ao que ocorre atualmente na Venezuela.

Por fim, o pastor ressalta que não fez tal escolha pela fé de Marina, que também é evangélica: “Tem uma coisa no meio evangélico conhecido como ‘voto de cajado’. Que é o pastor fechando o rebanho e falando, ‘esse aqui é de Deus e vamos votar nele’. Isso não é correto. A Marina também não segue este viés, o do ‘vote em mim, porque sou cristã’. Não usa o discurso que vai defender a moral cristã. Ela é uma estadista. Não é despachante de igreja, nem despachante de pastor”, concluiu Araújo.


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